A
troca de antibiótico em crianças internadas
com pneumonia
Residente: Rafaela Baroni Aurilio; Preceptor:
Sidnei Ferreira; Instituto de Puericultura e Pediatria Martagão
Gesteira – Serviço de Pneumologia Pediátrica
INTRODUÇÃO
Sabe-se que o Streptococcus pneumoniae é
o principal agente etiológico da pneumonia adquirida
na comunidade (PAC) na infância em maiores de três
meses de idade. O tratamento de escolha nos casos que necessitam
de internação é a Penicilina G, mesmo
naqueles em que há sensibilidade reduzida a este
antibiótico. No entanto o que se observa nas enfermarias
dos hospitais é uma grande diversidade de tratamento
destas pneumonias e critérios pouco específicos
para a troca do antibiótico.
OBJETIVOS
O presente estudo visa listar os critérios adotados
para troca da Penicilina G em crianças internadas
com PAC em Hospital Universitário Pediátrico,
assim como os fatores que influenciaram tal procedimento.
MATERIAIS
E MÉTODOS
Inicialmente, foi realizado um estudo de coorte, prospectivo,
no qual foram incluídas quatrocentas e treze crianças
internadas nas enfermarias do Instituto de Puericultura
e Pediatria Martagão Gesteira com PAC, na faixa etária
de zero a doze anos. Os dados foram coletados dos prontuários,
durantes as visitas às enfermarias por residentes
treinados e sob supervisão, utilizando um formulário
próprio, previamente testado, que após ser
preenchido era checado periodicamente com os dados contidos
no prontuário pelo supervisor. Do grupo de pacientes
em que o antibiótico inicial foi a Penicilina G (duzentos
e quatorze crianças) foram selecionados os pacientes
submetidos a troca de antibiótico. Posteriormente,
através de busca ativa aos prontuários, foram
avaliados os critérios e os fatores que influenciaram
na troca.
RESULTADOS
Das 214 crianças tratadas inicialmente com Penicilina
G, 80 (37%), foram submetidas à troca por outro antibiótico
no decorrer da internação. Houve perda de
alguns dados por relato incompleto no prontuário
ou extravio do mesmo, 14/80 (17%). Em relação
ao horário da troca, de 65 casos, 42 (64,6%) sofreram
a troca pela manhã, 21 (32,3%) pela tarde e 2 (3,1%)
à noite, não sendo detectada troca na madrugada.
Avaliando o dia da troca, de 66 casos, 42 (63,6%) ocorreram
em dias úteis, 11 (16,7%) às sextas, 12 (18,2%)
aos sábados e 1 (1,5%) no domingo, não havendo
trocas nos feriados ou nos finais de semana prolongados.
De 66 casos de troca, 46 (69,7%) foram durante a rotina
e 20 (30,3%) no plantão. A mudança foi realizada
em 64 casos, pelo chefe de enfermaria (staff da rotina)
em 32 (50%), pelo pneumologista em 14 (21,9%), pelo residente
em 12 (18,7%), pelo interno sob supervisão em 3 (4,7%),
pelo infectologista em 2 (3,2%) e por orientação
do infectologista em 1 (1,6%). Quanto aos critérios
de troca, dos 66 casos estudados, as alegações
foram: manutenção da febre 27 (40,9%), piora
clínica 11 (16,7%), infecção em outros
sítios associada 5 (7,6%), piora radiológica
ou laboratorial 5 (7,6%), surgimento de desconforto respiratório
4 (6,1%), suspeita de tuberculose pulmonar 4 (6,1%), manutenção
da febre e queda do estado geral 3 (4,5%), aparecimento
de complicações 3 (4,5%), por manutenção
do quadro clínico inicial 3 (4,5%), e suspeita de
pneumocistose 1 (1,5%).
CONCLUSÕES
Nas enfermarias do Hospital em estudo, a maioria das trocas
de antibióticos ocorridas o foi pela manhã,
provavelmente denotando a influência da supervisão
e discussão dos casos pelos médicos da rotina
com os residentes, corroborada tese quando se analisa que
metade das trocas ocorreu por decisão daqueles médicos.
A ocorrência de trinta por cento das trocas à
tarde, pode ser justificada pelos resultados de exames que
foram colhidos pela manhã e pela rotina (supervisão)
médica à tarde, quando há mais uma
oportunidade de discussão do caso pelo residente
com o preceptor. O pequeno percentual de três por
cento de troca à noite corrobora essa observação.
Dois terços das trocas foram realizadas em dias úteis,
chegando a oitenta e dois por cento quando é somada
a sexta feira, analisada em separado pelo mito de que “troca-se
na sexta porque após vem o fim de semana, quando
não se mexe na prescrição”, o
que pode apontar mais uma vez a influência da rotina
e da discussão (“round”) rotina versus
residente. Entretanto, pode-se observar, também,
a importância do especialista (pneumologista) e do
residente na decisão isolada pela troca; 21,9% e
18,8%. Com relação aos critérios utilizados
para a troca, todos os citados são concordantes com
as revisões recentes e a orientação
da OMS e OPAS para o tratamento da criança internada
com PAC em hospitais de médio e pequeno porte. Não
observamos percentual importante de troca nos finais de
semana ou feriados prolongados.
Não
encontramos na literatura estudos com os objetivos específicos
e desenho metodológico desse trabalho. Pelas características
peculiares do nosso hospital e da nossa rotina de trabalho,
acreditamos não serem reprodutíveis esses
resultados em parte dos outros hospitais do estado. Faz-se
necessário adotar critérios para troca de
antibióticos.
RECOMENDAÇÕES
1) As enfermarias pediátricas devem manter staff
médico e residentes, supervisão à tarde
e nos finais de semana, discutindo os casos diariamente,
capacitando o futuro especialista para as decisões
médicas;
2)
Rotinas com critérios para o tratamento inicial e
troca de antibióticos de crianças internadas
com PAC devem ser formalizadas;
3)
Um estudo ampliado reunindo outros hospitais, é necessário
para melhor avaliar os objetivos e resultados do presente
estudo.
Este
artigo foi o 3º colocado no 3º Prêmio de
Residência Médica, promovido pelo CREMERJ,
em dezembro de 2006.